novembro 14, 2010

Querida Mary


Lyon, França – Inverno de 1995. 

                 Ela estava sentada na poltrona confortável de sua biblioteca lendo um livro. Seus olhos captavam todas as palavras, mas sua mente estava em outro lugar. Fazia três meses que estava em Lyon e ele não fez a prometida visita. Ela estava desapontada, pensou que ele a amava verdadeiramente. Suspirou decepcionada e pensou nos flocos de neve caindo lá fora. Aquele inverno estava sendo rigoroso, ainda mais sem ele para abraçá-la e dizer palavras doces em seu ouvido. Fechou o livro e olhou mais uma vez para o papel em branco na escrivaninha, queria escrever para ele, mas seu orgulho falava mais alto. Parou de pensar nele quando sua mãe veio chamá-la.
                 - Mary, querida. Tem uma surpresa especial para você, olhe pela janela. – Disse a mãe sorridente. A garota não entendeu tal felicidade, mas mesmo assim olhou e então se surpreendeu... Paul estava ali, ele estava ali para ela.
                 - Mãe, é ele mesmo? Não acredito. Só pode ser um sonho. – Levantou arrumando o vestido e saiu correndo sem esperar resposta. Paul estava quase todo coberto de neve, mas mesmo assim, correu para abraçar sua amada.
                 - Mary... Como eu senti falta deste sorriso. Como você é perfeita. – Disse Paul acariciando o rosto dela, que suspirava apaixonadamente.
                 - Por que não mandou cartas? Fiquei todos esses meses te esperando. Parecia uma eternidade, um inferno na terra. – Desabafou Mary arrasada.
                 - Eu estive com uns problemas, nada que importe neste momento maravilhoso. Eu te amo Mary, sempre amei e sempre vou amar. – Disse Paul selando seus lábios nos de Mary. 
                 - Você não tem ideia do quando eu te amo Paul, mas vamos entrar se não congelaremos aqui neste frio. – Disse Mary sorridente. Os dois entraram em casa abraçados e passaram o maior tempo possível conversando, fazendo caricias e matando a saudade. – Paul, quais eram esses problemas que te deixaram tão ocupado em Londres?
                 - Ahn, é que... - Gaguejou Paul. Seria difícil contar uma notícia tão ruim á sua amada. – Mary, eu tenho um câncer, são meus últimos dias de vida. Eu nem poderia estar aqui, mas eu não aguentaria ficar mais um minuto sem sentir você perto de mim.
                 - Como você demorou tanto tempo para me contar uma coisa dessas? Eu poderia ter ido para Londres... Faria qualquer coisa para ajudar. – Disse sua amada desesperada.
                 - Não daria tempo, quando você chegasse a Londres seria somente para meu enterro. – Falou acariciando a mão dela.
                 - Quero passar todo o tempo que puder nesses seus últimos dias de vida. Ó Deus, como sobreviverei? – Mary exclamou deixando as lágrimas rolarem livremente pela sua face.
                - Querida, eu estou aqui, nós estamos aqui juntos, isso é o que importa. – Disse Paul selando outro beijo entre eles. Eles ficaram mais um tempo na sala e depois cada um foi para um quarto dormir. No outro dia, Mary acordou radiante. Colocou sua melhor roupa e correu até o quarto de seu amado, sentou-se ao seu lado e acariciou seu rosto. Ele estava gelado. Chamou seu nome e não houve resposta, ele não se mexia. As lágrimas vieram rapidamente, assim como os gritos agudos. Seus pais vieram até o quarto e ficaram desesperados assim com a garota. Mary não conseguia largar Paul, ele não poderia estar morto, eles se amavam, tinham um futuro pela frente. O médico chegou e com muito esforço tiraram a garota do quarto. Paul foi velado ali mesmo em Lyon por causa da nevasca que acontecia. Mary estava com um buraco no seu peito, a razão da sua existência havia partido. Dois dias após a morte de Paul, Mary descobriu que ele deixou uma carta para ela. Foi até a biblioteca com um café quente, sentou-se na poltrona e começou a lê-la.

“Querida Mary,

      Agradeço a Deus por ter te colocado em minha vida, na hora em que eu mais precisei. Nós dois estávamos na hora certa e no lugar certo. Naquele momento, tudo foi tão perfeito. Cada segundo que eu passei contigo, tentei aproveitar o máximo possível, pois sabia que seriam os últimos e foram os mais bonitos da minha vida. Adorava ficar ao teu lado, sentir seu abraço, o teu cheiro, teu calor, você! Seu beijo fez-me acreditar que era possível existir um amor puro, verdadeiro! Eu precisei de você tanto! Você fez parte de um momento maravilhoso da minha vida, você foi uma época na minha vida. Fostes um lindo anjo que veio perto de mim e fez-me esquecer de todo o sofrimento que eu estava passando. Eu te idealizei demais, e não vi que era hora de você partir. De repente você surgiu do nada e fez a minha esperança reascender. Foi lindo, foi mágico, foi como eu sonhei! Só que dessa vez eu é que tive que ir. Nem nos despedimos, acho que foi melhor assim. Se eu pudesse voltar e congelar o tempo, com certeza o momento escolhido seria o nosso primeiro beijo! Mas já não há tempo, foi-se o tempo. Já não pertencemos um ao outro, tomamos rumos diferentes Mas pode ter certeza de que eu nunca vou esquecer-te, meu amor! Quero sim, que tu fiques feliz pelo simples fato de eu ter tido a oportunidade de tentar te cativar... Nunca pedi nada em troca, pois eu te tinha o tempo todo dentro de mim. Mesmo distante, dentro do meu universo, eu te buscava, eu te sonhava. E podes ter certeza, de que cada momento, de que cada pensamento meu, foi sincero. Você me cativou desde o primeiro segundo em que te vi. Tu não podes imaginar, o quanto eu fiquei feliz, em te ver nesse inverno novamente. Eu pedi a Deus todos os dias para te trazer perto de mim outra vez. E nesses três meses que passaram, dentro do meu coração só restou uma saudade. Sei que agora tenho que te deixar partir da minha vida, Não vou mentir que está sendo difícil pra mim, pois eu te amo demais e não quero te deixar. Eu te desejo toda a felicidade do mundo, espero que tu encontres alguém que te complete, e que você possa ter a capacidade de se entregar a esse amor de tal maneira, como eu entreguei o meu coração á você.
  
                                                                                      Com amor, Paul.”

Terminou de ler a carta aos prantos. Mas não eram lágrimas de tristeza, eram de alivio, pois ela sabia que onde ele estivesse, estaria cuidando dela.

7 comentários:

Anônimo disse...

Você escreve muito bem. Adorei.

Caroline Petroli disse...

Muito bom!

Gabriel Goncalves disse...

Que texto liiiindo. Meus parabéns! *-*

Isabela disse...

Me emocionou de verdade! Você escreve lindamente!

Ellie Amundsen disse...

Esse contou foi emocionante e por pouco não derramei algumas lágrimas ao ler a carta de Paul para Mary.
Não importa que Paul já não posso dar o ar de sua presença, pois ele vive seguro e de forma inabalável no coração de Mary. E isso é o que realmente conta.
Parabéns pelo lindo conto.

Nat disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nat disse...

Ficou espetacular, fiquei impressionada com tamanha emoção que me causou, muito lindo e encantador.

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